Santa Cristina de Longos
em "Silva Minhota", 1956
de Leonídio de Abreu
Biblioteca Digital Cávado
"Em época bastante difícil de precisar, devido a carência absoluta de elementos, a piedade ergueu, no extremo sul da serra da Falperra, uma capela dedicada a Santa Marta. Por esta designação ficou sendo conhecida, depois, a elevação em que assentava aquele templo. Como seria e quais as suas primitivas dimensões, ignora-se por completo.
Daqui deduz-se que a tradição religiosa da Falperra vem já de épocas muito recuadas, anteriores, mesmo, à fundação da nacionalidade. Assim, por um documento do Mosteiro de Guimarães, de 924 sabe-se que uma das eminências da serra, já, naquela data, se chamava de Santa Marta. Além disso, na doação do couto de Braga, feita em 19 de Abril de 1112, pelo Conde D. Henrique e sua mulher D. Teresa, ao Arcebispo D. Maurício, alude-se, nos limites daquele território, ao Monte de Santa Marta - et inde ad montem sancte marte.
Julga-se, portanto, que já nesses afastados tempos fosse antiga, por ali, a devoção àquela serva do Senhor, em honra da qual pequenina ermida alvejasse nalguma cumeada, como que a inspirar confiança
aos que se aventurassem a atravessar os ásperos caminhos da serra, então, segundo a lenda, couto de bandoleiros que constantemente espiavam os recessos da montanha, na mira de pingues proventos, embora à custa de vítimas inocentes.
Da grandeza, porém, desse culto, nenhuma informação chegou até nós. É de presumir, contudo, que tivesse sido bastante piedoso, a julgar pela aspereza do local em que o templo assentava e os seus difíceis se não quase impraticáveis meios de acesso. Só uma especial devoção poderia levar até lá aqueles que em Santa Marta viam um dos seus mais preciosos elementos de protecção. No entanto, devido a circunstâncias várias, esse culto teria declinado imenso, a julgar pelo estado de ruina em que o Arcebispo Primaz D. Diogo de Sousa (1505-1532) encontrou a capela. Com efeito, no título das obras mandadas efectuar por aquele prelado nos arrabaldes da cidade de Braga e termo diz-se que ele «Fez a ermida de Santa Marta de novo porque a velha era já derribada ». Quer dizer: -D. Diogo de Sousa fez uma reedifição, melhor, sobre essas ruinas levantou um templo novo, como parece prová-lo o seu próprio brasão colocado no cimo do arco da actual capela-mor.
Ignora-se, pois, como tivesse sido a primitiva construção. Romãnica? É natural, a julgar por dois capiteis da época que ainda se conservam no templo.
Dessa reedificação de D. Diogo de Sousa peuco ou nada resta. Sucessivas alterações transformaram-na bastante, dando-lhe um aspecto incaracterístico, embora nela predominem, como pode ver-se, traços
bem evidentes do século XVII.
Está assente numa enorme Íraga, situada num esporão da serra, conhecido pelo Alto das Cortiças. À sua frente estende-se hoje uma pequena avenida, no extremo da qual se construiu um magnífico miradouro. Dali se disfruta vasto e soberbo panorama que, por leste, abrange os píncaros do Gerês; e,pelo poente, se estende até ao mar. À volta, expõem-se as ruinas de um castro luso-romano.
A capela de Santa Marta pertence, administrativa e eclesiàsticamente, à freguesia de Esporões, concelho de Braga.
Ao lado da capela, ergue-se uma pequena e modesta construção que nos dias de romaria serve para albergue dos forasteiros e para venda de recordações.
De lamentar é, porém, aque os meios de acesso para o Alto das Cortiças ainda sejam tão reduzidos. À beleza do local, que uma rusticidade natural torna mais sugestiva; e o soberbo e deslumbrante panorama
que se estende, para todos os lados, aos olhos do visitante, impõem, sem dúvida, uma ligaçã conveniente para lá, é certo que, presentemente, já bastante facilitada com a estrada, embora rudimentar, que por iniciativa do falecido abade de Esporões, sr. Padre Guilherme Silva, foi aberta há três anos.
A par do culto de Santa Marta, criou-se, em data igualmente remota, o de Santa Maria Madalena.
Simplesmente, enquanto aquele se confinou ao Alto das Cortiças, este veio estabelecer-se no sopé do monte, em local mais aprazível e quase que numa permanente saudação e bênção amiga às duas mais
importantes localidades do distrito - Braga e Guimarães - ligadas directamente pela estrada que por ali passava.
Que esse culto teve à maior projecção prova-o, sem dúvida, o santuário que, depois, se ergueu em sua honra. Mas lobrigar a sua origem tem sido, até hoje, trabalho verdadeiramente infrutífero. Tão antiga
como a de Santa Marta? Não é crível, pois nem a tradição a tal se refere.
É fora de dúvida, porém, que anteriormente ao pontificado do Arcebispo Primaz de Braga D. Diogo de Sousa já na montanha da Falperra existia uma capela dedicada a Santa Maria Madalena. Isso depreende--se do « Memorial» das obras mandadas fazer por aquele prelado e elaborado pelo seu secretário, o Cónego Tristão Luis. Nele se diz: « Mandou fazer frestas na igreja de Santa Maria Madalena e
pôr vidraças e pintar a capela-mór e outão do Cruzeiro com todos os três altares e as quatro imagens que há aí: e assim mandou derribar todas as córtes de bêstas e gado, que estavam dentro encostadas à Igreja, e fazer currais de novo fora da dita cerca com porta para fora, e uma pequena para dentro; e mandou pôr vestimenta, cálix e livro na dita Igreja». E mais adiante menciona-se: « No ano de 1531 mandou, além das obras que acima estão escritas e já tinha feito na Madalena, fazer a fonte que de fora está, e dentro um campanário de novo com seu sino, e uma porta travessa que vai da Igreja para o terreiro de
dentro, e mais uma varanda de colunas de pedra que vai de longo da torre antiga e uma escada que vai da dita varanda para a torre, e uma janela de assento na dita contra a fonte».
Foi, pois, D. Diogo de Sousa um grande benemérito da Falperra, como, aliás, o fôra de Braga e de uma forma especial da cidade que a ele ficou devendo, até então, a maior parcela do seu progresso.
Com respeito às obras da capela foram de tal monta que chegou a atribuir-se ao mesmo prelado a própria fundação do templo, quando, afinal, ele limitou-se a restaurá-lo e a dotá-lo do que de mais carecido estava.
Era esta capela situada no local outrora conhecido por a Portela de Espinho. E por sinal que os paroquianos da vizinha freguesia de Santa Cristina de Longos - já no concelho de Guimarães e cabeça de um arcediagado da Sé de Braga, instituido, em substituição do de Olivença, pelo Arcebispo Primaz D. Jorge da Costa, em 6 de Junho de 1492 - à qual pertencia o terreno onde se encontrava a capela, eram
obrigados a dar ao seu abade, no dia da festa de Santa Maria Madalena, três figos lampãos e uma cabaça de água.
É natural que as obras mandadas fazer por D. Diogo de Sousa tivessem contribuido para afervorar o culto de Santa Maria Madalena e restaurar, ou também aumentar, o de Santa Marta.
Em reforço desta hipótese há o facto de um século depois se terem reunido em Braga muitos devotos daquela Santa com o fim de se constituirem em Irmandade. Assim, em 1635 elaboraram uns estatutos que no mesmo ano foram aprovados pela autoridade eclesiástica.
Entretanto, a capela ia-se arruinando ao mesmo tempo que se tornava pequena para o culto.
Reconhecidas estas deficiências, a Irmandade decidiu-se a substituir aquele templo por outro mais espaçoso. Lançada solenemente a primeira pedra em 10 de Março de 1694, as obras, apesar de toda a boa vontade, não seguiram o ritmo que seria para desejar, devido, talvez, a carência de recursos. Aparece, então, o Arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles que magnanimamente as dota com três mil cruzados. Tomando, com isto, impulso maior, puderam ser dadas vor concluidas em 14 de Julho de 1737.
O culto de Santa Maria Madalena não se confina sômente a este templo, mas ainda a uma ermidinha situada ao norte e à margem da antiga estrada de Guimarães. É conhecida pela de Santa Maria Madalena, a Penitente, e a referência mais antiga que dela se encontra alcança o ano de 1772.
Sobre Santa Marta, temos de convir que se anteriormente a 1789 algum templo existia, em sua honra, em tal ponto da serra, tudo desapareceu para dar lugar a uma pequena capela que naquela data se ergueu
no extremo sul da alameda, que se estende a toda a largura do santuário. Esta capela, usualmente designada pela de Santa Marta do Leão, em consequência de junto dela ter havido uma fonte com um leão de pedra a jorrar água pela boca, foi considerâvelmente ampliada, em 1917, pelo benemérito sr. Júlio António de Amorim Lima.
Do Santuário faz parte ainda a capela de Santo António da Paz, integrada no conjunto de edifícios pertencentes à Irmandade.
Atribuí-se a fundação desta capela ao rei D. Miguel, quando da sua visita, em 1828, ao convento que ali se tinha instituido. Foi considerada capela real e como lembrança da benemérita protecção que
D. Miguel lhe dispensou lá se conservam, ainda, as armas deste mornarca.
Como a calma e a beleza do local fossem convidativas, Frei António de Jesus, professo do Convento de Vinhais, entusiasmou-se a fundar, na Falperra, o Seminário de Nossa Senhora da Conceição do Monte
da Madalena. Para isso, a Mesa da Irmandade celebrou um acordo condicional.
Concedida a respectiva licença pelo Núncio Apostólico Franzoni, Arcebispo de Nazianzo, em 24 de Setembro de 1825, uma Provisão de D. João VI, passada no dia 21 de Novembro do mesmo ano, sancionava a autorização pedida. Então, após consentimento do Arcebispo Primaz D. Frei Miguel da Madre de Deus, dada em 19 de Janeiro de 1826, o novo convento que, segundo um Breve de Leão XII, ficaria sujeito à jurisdição do Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores de S. Francisco, principiou a funcionar com grande aprazimento de toda a cidade.
Em 13 de Março do ano seguinte, o referido Núncio Apostólico concedia a Frei António de Jesus todas as faculdades que tinham os guardiães dos outros seminários pertencentes ao mesmo Instituto. Por
sua vez, a Mesa da Irmandade fez, em 6 de Julho, a escritura de doação das casas e cerca à nova instituição, conhecida, também, por Convento dê Missionários Apostólicos de S. Francisco de Assis.
Pensaram os monges da Falperra em construir um edifício à altura da sua missão e do movimento que a fundação de Frei António de Jesus registava.
Como a iniciativa merecesse razoável acolhimento, pois depressa apareceram benfeitores, a edificação começou a erguer-se à custa de esmolas.
A primeira pedra foi benzida solenemente no dia 24 de Agosto de 1828 pelo vigário geral Dr. Manuel José Leite Pereira, no impedimento, por doença, de D. João José Vaz Pereira, Bispo titular de Carrhes
e auxiliar do Arcebispado. A obra, porém, nunca se concluiu, pois em 1834 o convento foi extinto, como os restantes do país.
Foi seu último guardião Frei Joaquim de Jesus, que jaz na capela de Santo António.
Após a morte de Frei Joaquim, a Irmandade entrou na posse dos seus antigos bens, agora bastante aumentados com as edificações feitas pelos monges.
A antiga residência monástica passou, então, a ser utilizada para diversos fins, entre os quais Casa da Mesa, Casa das Estampas e pousada de pessoas carecidas de ar de montanha.
De 1920 a 1924, esteve ali instalada a comunidade beneditina, enquanto se não concluiam as obras da sua residência, em Singeverga, Santo Tirso.
Desde então, o velho edifício só voltou a ter aplicação especial, com a instalação ali, em 1954, do Seminário Carmelita.
Acerca do fundador do convento a que nos referimos, devemos dizer tratar-se de um sacerdote muito distinto pela sua vasta erudição teológica e humanística. Nasceu em 1774, na freguesia de Parada, concelho de Paredes de Coura, sendo seus pais Francisco Fernandes e Maria Josefa de Jesus.
Aos quinze anos de idade, professou no Convento de Vinhais, dos Missionários Apostólicos do Seráfico Padre S. Francisco. Faleceu no dia 20 de Outubro de 1841, na residência do capelão do Recolhimento de Oblatas do Menino Jesus de Moífreita, daquele concelho transmontano. Extintas as Ordens Religiosas, Frei António de Jesus, que seguira a causa de D. Miguel, destacou-se bastante quando do Cisma que, por motivo do liberalismo, atingiu a igreja bracarense.
A Santa Sé chegou a nomeá-lo, em 27 de Junho de 1838, Administrador do Arcebispado, cargo em que se manteve até 16 de Maio do ano seguinte.
É da sua autoria, embora publicada postumamente, a História: abreviada da decadência e queda da Igreja Lusitana."

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