GUIMARÃES NA FORMAÇÃO DA NACIONALIDADE
«As terras de Portugal em que dominavam ou influíam os parciais de Afonso Henriques começaram a rebelar-se nos princípios de 1127. Entre elas Guimarães, a antiga corte do conde Henrique, declarou-se pelo infante, que aí se achava. A invasão de Afonso VII veio então impedir ou antes adiar a guerra civil. Na sua marcha vitoriosa o rei de Leão, rendidos outros castelos e povoações, pôs sítio a Guimarães;
porque ao príncipe não importava por certo se era sua tia ou seu primo que regia Porntugal; importava-lhe que esta província reconhecesse a sua autoridade suprema. Depois de alguma resistência, vendo que as suas forças não bastavam para repelir aos cercadores, os barões e cavaleiros encerrados nos muros de Guimarães declararam em nome do moço Afonso que ele se consideraria de futuro vassalo da coroa leonesa. Egas Moniz, poderoso fidalgo, cujos senhorios se dilatavam pelas margens do alto Douro e que, talvez mais que nenhum, gozava a reputação de homem leal, ficou por fiador da promessa. O rei de Leão levantou o cerco e, depois de reduzir à obediência D. Teresa, retinou-se para Galiza. Quando, porém, os sucessos de 1128 entregaram Portugal nas mãos do filho do conde Henrique, ele esqueceu as promessas de Guimarães, e com ele as esqueceram os barões portugueses. Só Egas Moniz se lembrou do que jurara. Seguido de sua mulher e filhos, dirigiu-se à corte do monarca e apresentando-se perante ele descalço e com uma corda ao pescoço, pediu para resgatar com a morte a sua palavra nunca traída. Era grande a cólera de Afonso VII; mas venceu-o aquela inaudita façanha de lealdade. Deixou-o partir solto e livre e, o que era mais para o nobre cavaleiro, sem a tacha de deslealdade.
A independência portuguesa, que por tantos anos tendera a realizar-se, retrocedia ainda uma vez; era um problema cuja solução já perto do seu termo devia tornar a ser tentada de novo. Mas as consequências da vitória obtida pelo rei de Leão, posto que graves, não eram talvez as mais de recear: o amor cego da rainha por um homem alheio à província, poderoso por alianças e parentescos com muitos ilustres
barões da Galiza e ainda de Leão e de Castela, e a importância que, além dele, obtivera em Portugal seu irmão mais velho, Bermudo Peres, o qual nos princípios de 1128 achamos dominando em Viseu, e por consequência a clientela numerosa, quer de naturais, quer de estranhos, cujos interesses seriam conformes com os dos dois irmãos, tudo servia para tornar duvidosa a sorte futura de Portugal, ligada à vontade de um valido, cujo procedimento político podia ser guiado por considerações e respeitos contrários à desejada independência do país que indirectamente governava. Se atendermos à confiança que, pouco depois, Afonso VII punha no conde Fernando Peres, e à guerra que este fez a Portugal com os outros condes de Galiza, como adiante veremos, não será demasiado violento supor que na invasão de 1127 ele contribuíria para D. Teresa dar obediência ao rei de Leão; pressuposto tanto mais provável, quanto nos consta que o principal autor da pacificação foi o antigo favorecedor do conde, o célebre Gelmires.
Tal era a situação política do País. Afonso Henriques, o moço cavaleiro, chegara à idade de dezassete anos. Era ele, segundo o testemunho de um seu contemporâneo, destro nas armas, eloquente, cauteloso e de claro engenho. Ajuntava a estes dotes, que devemos supor exagerados por se atribuírem a tão curta idade, a nobreza da figura e a beleza do rosto. A ambição do poder, o exemplo de seu primo Afonso Raimundes, a disposição dos ânimos irritados contra o predomínio de Fernando Peres, as instigações dos fidalgos, a exclusão ignominiosa em que o conservavam dos negócios públicos, tudo o excitara a colocar-se à frente de uma revolução cujas consequências, naqueles verdes anos, não era fácil prever. Tinha amigos próprios, e a principal nobreza preferia vê-lo apossar-se do mando supremo a sofrer que os estranhos e os partidários destes governassem por intervenção de D. Teresa. Como se manifestou a rebeldia e quais foram as particularidades que ocorreram nela são cousas sobre que restam sobejas fábulas, mas apenas fugitivas memórias. Parece, porém, certo que nos primeiros meses de 1128 a guerra civil, encetada no ano antecedente, se preparava de novo ou já porventura começara. As principais personagens que em Maio desse ano estavam ligadas com Afonso Henriques eram o arcebispo D, Paio, seu irmão Sueiro Mendes, denominado o grosso, Ermígio Moniz, Sancho Nunes, marido
que era ou depois foi de D. Sancha, irmã do infante, e Garcia Soares. Diante destes e doutros nobres cavaleiros de Porttugal declarava ele em Braga a sua intenção de se apossar do governo, e fazia de antemão mercês ao metropolita, contando com o auxílio dele nessa empresa.
Pelos indícios que os documentos nos ministram, o infante abandonou sua mãe, a qual talvez se achava então na corte de Afonso VII, e dirigiu-se à província de Entre Douro e Minho no mês de Abril. A revolução parece ter rebentado naquela província, dilatando-se pelo distrito de Guimarães, pelo condado de Refoios de Lima, pelo território de Braga e pelas terras, enfim, dos nobres que seguiam a parcialidade do infante. A suspeita da ausência de D. 'Teresa na ocasião do alevantamento adquire maior probabilidade, se atendermos a que só quase três meses depois os dois partidos vieram a uma batalha, que foi decisiva e fatal para a rainha. De feito, esta, tendo marchado para Guimarães com as tropas dos fidalgos galegos e dos portugiueses seus partidários, aí se encontrou com o exército do infante no campo de S. Mamede junto daquela povoação. Foi desbaratada D. Teresa e fugiu: nesta fuga, porém, perseguida pelo filho, ficou prisioneira com muitos dos seus. A tradição refere que Afonso Henriques
a lançara carregada de cadeias no castelo de Lanhoso. Não desdiz essa tradição dos costumes ferozes do tempo; mas desdiz dos monumentos coevos, que mão a autorizam. O que é certo é que num só dia de combate o poder supremo, que o moço príncipe tanto ambicionava, lhe caíra nas mãos.»
(«História de Portugal»)
NO CASTELO DE GUIMARÃES
«Estão reunidos em assembleia-grande os barões e ricos-homens de Entre Douro e Minho e os cavaleiros estrangeiros que com Fernão Peres vieram para o Condado de Portugal. E é animado e tempestuoso o conselho e o senhor estranho sabe que, por ele e pela Infanta de Portugal, só estão, de corpo e alma, os estrangeiros que com ele vieram.
A hoste do moço Infante aproxima-se de Guimarães e vem em som de guerra. É Garcia Bermudes que o vai anunciar ao Senhor de Trava e juntos combinam reter dentro dos muros do Castelo os partidários do Infante.
No coração da Infanta, em que lutavam dois amores, o materno é vencido, D, Teresa sofreu já combates, passou noites sem sono, cavalgou dias inteiros. O seu coração não conhece o medo, o seu corpo, o cansaço. Se algo a fazia tremer e sofrer, era dor de ver irmãos contra irmãos, de saber que o filho contra ela ousara pegar em armas. Agora que o Infante avança em som de guerra, agora que o Infante à face do Condado inteiro se ergue contra sua mãe, ela deixa de o ser. Não é mais a mãe de Afonso Henriques, é só a Infanta de Portugal que defende os senhorios deixados por seu marido.
A conversa entre o Senhor de Trava e Garcia Bermudes é escutada pelo Bobo que escarnece ambições e amores. Garcia Bermudes, no seu amor infeliz, é uma das suas vítimas.
Mas o que se perdoa quando a alma está tranquila é ofensa mortal quando o coração sofre.
«Que sejas açoutado pelos meus cavalariços» — ordena Fernão Peres de Trava.
O Bobo sofre amargamente pela injúria: mandá-lo açoutar a ele, D. Bibas, mimoso do Conde D. Henrtique!
— Ah! Conde maldito, pagarás cara a afronta! Hoje ris, mas ainda virá o dia em que chores e então não te valerão lágrimas !
Misteriosamente, todo embuçado, um peão pede para falar a Gonçalo Mendes, Senhor da Maia. A sós, revela-lhe que é Egas Moniz Coelho que volta da Terra Santa e que, por seus olhos, queria certificar-se do que de Gonçalo Mendes se dizia no arraial do Infante: que a estada em Guimarães mostrava que o Lidador enra de D. Teresa e traíra o seu príncipe.
E Gonçalo Mendes revela-lhe que até ao fim, até à perda da última esperança procurara evitar aquela atroz guerra de irmãos. Que quando o momento de combater chegasse, lá o encontrariam, a si e aos seus homens de armas, no arraial do Infante.
Mais que certificar-se da lealdade de Gonçalo Mendes queria Egas Moniz ouvir da boca de Dulce a verdade sobre o seu amor. Tinham-lhe chegado à Terra Santa novas de que a donzela o esquecera. Acreditara. Mas queria que ela própria lho dissesse.
Arriscava, talvez, a sua vida naqueles paços, ele a quem Fernão Peres odiava com o mesmo ódio implacável que votava a seu tio, o velho aio Egas Moniz.
E Egas vai ter com Dulce onde julga que a poderá, talvez, achar: a um jardim, onde outrora muitas vezes se encontravam, de que ele ainda conservava a chave.
E lá encontra Dulce, e ali sabe que ela durante a ausência lhe guardara o mesmo amor e que, para o seguir, estava disposta a abandonar a própria Infanta de Portugal que a criara e lhe queria como filha.
Terminara o banquete em que, depois da cúria, se tinham reunido os barões e ricos-homens. D. Teresa a ele presidira como rainha que não conhece o medo. A ela lhe competia também castigar e premiar. Começaria pelo prémio. A Garcia Bermudes, a quem muito devia e de cujos serviços muito
ainda tinha a esperar, oferecia a mão de Dulce, sua filha adoptiva. O cavaleiro estremece: o conde de Trava cumprira a promessa mas Dulce está pálida, tão pálida! A sua felicidade vai rasgar-lhe o coração. E Garcia Bermudes ama mais Dulce que a si próprio.
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