em "O Minho", 1957
Antologia da Terra Portuguesa
de Luís Forjaz Trigueiros
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«BERÇO VENERANDO DA MONARQUIA...»
«Se algum dia uma saudade filial do mundo antigo te nascer no coração, como um pensamento de poesia, como uma flor de Primavera, que, sem semente, vem criada a um bafo puro do Céu; se jamais saíres da sombra conhecida do teu tecto, não para ir visitar as capitais florescentes e juvenis, mas os cemitérios dos grandes povos, a Itália, a Grécia, o Egipto, a Síria; os meus votos e invejas te acompanharão, porque tu não vais, como os frívolos cortesãos e falsos amigos, embriagar-te ao banquete das nações no dia da prosperidade; vais, como piedoso romeiro, tributar calado oferenda
de suspiros aos finados, e volverás para entre teus filhos largos séculos mais velho para a sabedoria.
Pelas conchas da murça e maviosa toada de seus cantares se distingue de longe o cristão romeiro; mas tudo isso depõe ele, com o bordão, ao cabo da jornada, no canto da sua lareira. Só a melancolia grave, que é meia virtude, só as palavras de aviso, que são meia felicidade, só o desapego dos bens
movediços e cambiantes do mundo, que é no mundo o único bem possível, lhe permanecem, e o acompanham até à hora derradeira.»
Guimarães : «Berço venerando da
Monarquia...» — A. F. de Castilho
«Se em terra, porém, de Lusitânia abriste os olhos, se o primeiro passo que deste, descido dos braços maternos, foi em terra de Lusitânia, seja ela a que estreie os teus pés, e te afaça para as viagens longínquas. Seja o antigo Minho o primeiro que te apascente de recordações gloriosas.
Ó berço venerando da Monarquia, tão largamente rainha! não são as muitas delícias de que a Natureza te arraiou, perfumado como paraíso, não é a índole anciã dos filhos que ainda hoje crias, esses homens tão laboriosos, tão constantes, tão leais, tão Portugueses, e essas mulheres tão dignas deles, tão virtuosas, tão mulheres, não é a abundância que de teu solo e indústria dimana para toda a parte, o que mais e melhor namora a vontade ao viajante sabedor dos tempos que foram. Tu conservas ainda padrões e monumentos de nossa primeira idade...»
(«Quadros Históricos de Portugal»)
ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO(1800-1875)


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